A esse plano de edições interessou, desde a primeira hora, restituir ao público em geral – e à comunidade de investigadores de História do Livro em particular, tanto em Portugal como no estrangeiro – alguns dos mais importantes cimélios da Imprensa portuguesa.

Assim, no cumprimento desses objectivos editoriais, a primeira fase de tal projecto decorreu – por sugestão que fizemos a entidades editoriais alheias a este nosso projecto – quer junto do Instituto Cultural de Macau, quer junto da Biblioteca Nacional de Lisboa, com o natural carinho dado às nossas propostas por parte dos directores de ambas as instituições.

O primeiro desses cimélios a merecer a publicação foi, com efeito, o mais antigo livro impresso em Macau, da autoria do jesuíta salmantino, Pe. Juan Bonifacio, intitulado Christiani Pueri Institutio, saído inicialmente naquele território do sul da China em 1588. Esta nossa (nova) edição – a partir do exemplar existente na Biblioteca da Ajuda, em Lisboa -- teve lugar em Macau, sob os auspícios do Instituto Cultural de Macau, no segundo semestre de 1988.

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Frontispício do exemplar da obra do Pe. Juan Bonifacio, existente da Biblioteca da Ajuda, em Lisboa (importa corrigir um lapso tipográfico, na capa desta nova edição: onde se lê Ioanne deverá ler-se Ioannes).

O segundo projecto a ser programado, em 1989 - e, pouco depois, realizado – foi, ainda na nossa vertente de Orientalista, a edição em fac-simile do único exmplar conhecido no mundo da obra Relaçam de hum Prodigioso Milagre, por Marcelo Francesco Mastrilli (Goa, no Colégio de Rachol, 1636). Esse exemplar, que na altura já integrava as colecções da Biblioteca Nacional, fora adquirido –- por nossa própria sugestão (por ofício) à BN – num leilão de parte dos fundos bibliográficos que tinham pertencido ao coleccionador português Comandante Vilhena. Este livro específico for a propriedade, por sinal, de Charles Boxer, ostentando a sua marca de posse.

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Capa da edição de Relaçam de hum prodigioso milagre, de Marcelo Francesco Mastrilli, Goa, no Colégio de Rachol, 1636

(exemplar da colecção Boxer, hoje na Biblioteca Nacional, Lisboa).

Esse plano de edições, na nossa perspectiva, precisava porém de autonomia. Esse facto justificou que, ainda nesse no de 1989, fossem tomadas as diligências necessárias, junto à Câmara Municipal de Lisboa, com vista à edição em fac-simile do mais antigo livro impresso em Lisboa, os Comentários ao Pentateuco, do castelhano de Gerona, Moses ben Nahman (1489). Ainda nesse mesmo ano, com efeito, essa mesma obra foi divulgada. A publicação esteve a cargo de Edições Távola Redonda (sob a nossa direcção administrativa e editorial desde a sua fundação, em 26 de Fevereiro de 1976).

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Primeiro fólio de Comentários ao Pentateuco, de Lisboa, de 1489, em caracteres; portada da edição em fac-simile desse cimélio, em colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa, em 1989, sob a nossa responsabilidade.

O projecto, a partir daí, estava em marcha, seguindo o seu caminho próprio. Tal decorreu, desde 1989, em autonomia administrativa e, daí, em autonomia de gestão de recursos culturais (a qual era, apesar de tudo, sempre relativa, dados os apoios à edição a que habitualmente recorremos junto de várias instâncias oficiais).

Desde a fase de arranque deste projecto foram editadas cerca de uma dezena de obras. Uma destas foi a edição em fac-simile do Pentateuco (ou seja, como atrás referimos, o mais antigo livro protuguês, de Faro, 1487). Tal acção decorreu em 1991, em colaboração com o governo Civil de Faro.

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Portada da edição em fac-simile do Pentateuco, em Faro, em 1991, sob a nossa responsabilidade e do hebraísta Manuel Augusto Rodrigues.

Entre outros pontos do percurso editorial deste Centro, então porventura com maior projecção – nacional mas não só – foram as edições em fac-simile do Cancioneiro da Ajuda, em 1994 e dos dois mais antigos livros impressos na cidade do Porto em 1497.

A primeira destas obras, o Cancioneiro da Ajuda, é a reprodução de um códice do século XIV, com cantares de trovadores galaico-portugueses do noroeste da Península Ibérica. Tal edição foi por nós realizada em colaboração com o IPPAR-Biblioteca da Ajuda e da Comissão Lisboa 94.

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Reprodução da caixa envolvente do fac-simile do códice medieval do Cancioneiro da Ajuda, a primeira vez que foi reproduzido na íntegra, em exigente fidelidade em relação ao original; reprodução de um dos fólios iluminados do mesmo Cancioneiro.

Tratou-se, de facto, de um projecto ambicioso. Ele só resultou positivamente em virtude de também ter havido uma aposta do poder político neste empreendimento (dados os elevados custos de produção que tal iniciativa acarretou);
A (re)edição dos dois mais antigos cimélios portuenses em 1997, coincidiu com o interesse manifestado em relação a este empreendimento cultural, quer por parte da Câmara Municipal do Porto, quer por parte do Bispado portuense.

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Frontispícios das edições em fac-simile Constituições Sinodais do Bispado do Porto;e Evangelhos e Epístolas com sua exposição em romance, cada uma delas em 2 tomos (Lisboa, 1997).

Esta fase de actidade do Centro de Estudos de história do Livro e da Edição (C.E.H.L.E.) coincidiu com o projecto de criação, no mesmo, de uma Revista Portuguesa de História do Livro, semestral. O primeiro número foi dado à estampa e apresentado no período de Junho-Julho de 1998.

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Revista Portuguesa de História do Livro (pormenor da maqueta da capa).

Cerca de 12 anos depois de ter sido criado em Lisboa o Centro de Estudos de História do Livro da Edição (C.E.H.L.E.) oxalá possamos estar à altura dos desafios que a dia-a-dia se nos apresentam.

A forma coerente de prosseguirmo com estes ojectivos científicos e culturais é um pouco, também, a resposta aos estímulos que nos são dados pelos (nossos) leitores. Procuran-se dignificar, hoje e sempre, a Cultura portuguesa e a História do Livro.

Costa da Caparica (virado para a praia do Guincho), 8 de Julho de 1999.

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